Cultura

Justa conquista Prémio Internacional em Pequim com visão única sobre Pedrógão

O filme de Teresa Villaverde vence no Festival Internacional de Cinema de Pequim, com Madalena Cunha eleita melhor atriz secundária numa obra que homenageia os sobreviventes da tragédia.

Cláudio Abreu Cláudio Abreu
27 de Abril de 2026 16:22 4 min de leitura
Justa conquista Prémio Internacional em Pequim com visão única sobre Pedrógão

A cinematografia portuguesa voltou a brilhar no cenário internacional. O filme Justa, da realizadora Teresa Villaverde, conquistou o Prémio Tiantan para Melhor Contribuição Artística no Festival Internacional de Cinema de Pequim, na China. Em paralelo, a jovem atriz Madalena Cunha, com apenas 13 anos e natural das Caldas da Rainha, recebeu o reconhecimento como Melhor Atriz Secundária, um feito notável que coloca a talentosa intérprete no mapa do cinema internacional.

Justa Conquista Prémio Internacional em Pequim com Visão Única sobre Pedrógão

Um Júri de Prestígio Reconhece o Filme

Os prémios foram atribuídos por um painel de cineastas e artistas de renome mundial. A atriz francesa Juliette Binoche, que presidiu ao júri, juntamente com os realizadores Bi Gan, Tran Anh Hung e Gabriel Mascaro, o compositor Simon Franglen e os atores Zhang Yi e Zhang Xiaofei, reconheceram o valor artístico da produção portuguesa. Tratando-se de uma co-produção entre a Alce Filmes (Portugal) e a Epicentre Films (França), o filme contou com um elenco robusto que inclui ainda Betty Faria, Filomena Cautela, Robinson Stévenin e Ricardo Vidal.

Uma História Ficcional com Raízes na Tragédia Real

A narrativa de Justa situa-se em 2017, no período que se seguiu ao devastador incêndio de Pedrógão Grande. Embora se trate de ficção e não de documentário, as histórias que tecem a trama emergem de uma realidade traumática que marcou para sempre a região de Leiria. Naquele trágico evento, 66 pessoas perderam a vida e 253 ficaram feridas, enquanto cerca de 500 habitações e 50 empresas foram completamente destruídas.

Justa Conquista Prémio Internacional em Pequim com Visão Única sobre Pedrógão

Contudo, Villaverde escolheu uma abordagem sensível e poética, sem explorar explicitamente as imagens de chamas e destruição. Em seu lugar, apresenta histórias que refletem a complexidade emocional de quem sobreviveu à catástrofe. A personagem de Justa segue uma menina que tenta processar a morte da mãe no incêndio enquanto apoia um pai que ficou marcado fisicamente pela tragédia. O filme entrelaça ainda os destinos de uma mulher que perdeu a visão após a morte do marido e de uma psicóloga dedicada a mitigar o sofrimento dos afetados.

Inspiração Nascida de uma Viagem Impactante

Teresa Villaverde desenvolveu o projeto após uma visita à região um ano após o incêndio. Nessa ocasião, a paisagem desoladora a marcou profundamente. Conforme partilhou em entrevista à Lusa quando da estreia cinematográfica, a realizadora foi impressionada pela extensão da destruição: «Atravessei aquelas estradas quando estava tudo ardido, e nas imagens que se veem na televisão ou em fotografias não se percebe o impacto de quilómetros e quilómetros de tudo preto, era uma coisa impressionante, e o silêncio total».

Esse silêncio opressor transformou-se numa metáfora poderosa para o luto e a resiliência, temas centrais do filme. Villaverde encarou Justa como uma homenagem aos vivos, reconhecendo que, enquanto a memória dos falecidos é preservada anualmente, muitas vezes esquecemos quem teve de reconstruir as suas vidas a partir das cinzas.

Jornada Internacional e Perspetivas Futuras

Após estrear-se com sucesso em Portugal e França, Justa está preparada para conquistar novos mercados. O filme encontra-se agendado para exibição nas salas de cinema brasileiras e já recolheu seleções em festivais de cinema na Alemanha, Austrália, Grécia, Suíça, Brasil e Itália, entre outros. Este percurso internacional confirma o poder universal da narrativa e o impacto emocional de uma obra construída a partir de uma ferida tão local e tão profunda.

Informações Relevantes

Realizadora: Teresa Villaverde | Produção: Alce Filmes (Portugal) e Epicentre Films (França) | Filme premiado: Prémio Tiantan para Melhor Contribuição Artística e Melhor Atriz Secundária (Madalena Cunha) no Festival Internacional de Cinema de Pequim | Tema: Resiliência e reconstrução após o incêndio de Pedrógão Grande (2017)

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