A cinematografia portuguesa voltou a brilhar no cenário internacional. O filme Justa, da realizadora Teresa Villaverde, conquistou o Prémio Tiantan para Melhor Contribuição Artística no Festival Internacional de Cinema de Pequim, na China. Em paralelo, a jovem atriz Madalena Cunha, com apenas 13 anos e natural das Caldas da Rainha, recebeu o reconhecimento como Melhor Atriz Secundária, um feito notável que coloca a talentosa intérprete no mapa do cinema internacional.

Um Júri de Prestígio Reconhece o Filme
Os prémios foram atribuídos por um painel de cineastas e artistas de renome mundial. A atriz francesa Juliette Binoche, que presidiu ao júri, juntamente com os realizadores Bi Gan, Tran Anh Hung e Gabriel Mascaro, o compositor Simon Franglen e os atores Zhang Yi e Zhang Xiaofei, reconheceram o valor artístico da produção portuguesa. Tratando-se de uma co-produção entre a Alce Filmes (Portugal) e a Epicentre Films (França), o filme contou com um elenco robusto que inclui ainda Betty Faria, Filomena Cautela, Robinson Stévenin e Ricardo Vidal.
Uma História Ficcional com Raízes na Tragédia Real
A narrativa de Justa situa-se em 2017, no período que se seguiu ao devastador incêndio de Pedrógão Grande. Embora se trate de ficção e não de documentário, as histórias que tecem a trama emergem de uma realidade traumática que marcou para sempre a região de Leiria. Naquele trágico evento, 66 pessoas perderam a vida e 253 ficaram feridas, enquanto cerca de 500 habitações e 50 empresas foram completamente destruídas.

Contudo, Villaverde escolheu uma abordagem sensível e poética, sem explorar explicitamente as imagens de chamas e destruição. Em seu lugar, apresenta histórias que refletem a complexidade emocional de quem sobreviveu à catástrofe. A personagem de Justa segue uma menina que tenta processar a morte da mãe no incêndio enquanto apoia um pai que ficou marcado fisicamente pela tragédia. O filme entrelaça ainda os destinos de uma mulher que perdeu a visão após a morte do marido e de uma psicóloga dedicada a mitigar o sofrimento dos afetados.
Inspiração Nascida de uma Viagem Impactante
Teresa Villaverde desenvolveu o projeto após uma visita à região um ano após o incêndio. Nessa ocasião, a paisagem desoladora a marcou profundamente. Conforme partilhou em entrevista à Lusa quando da estreia cinematográfica, a realizadora foi impressionada pela extensão da destruição: «Atravessei aquelas estradas quando estava tudo ardido, e nas imagens que se veem na televisão ou em fotografias não se percebe o impacto de quilómetros e quilómetros de tudo preto, era uma coisa impressionante, e o silêncio total».
Esse silêncio opressor transformou-se numa metáfora poderosa para o luto e a resiliência, temas centrais do filme. Villaverde encarou Justa como uma homenagem aos vivos, reconhecendo que, enquanto a memória dos falecidos é preservada anualmente, muitas vezes esquecemos quem teve de reconstruir as suas vidas a partir das cinzas.
Jornada Internacional e Perspetivas Futuras
Após estrear-se com sucesso em Portugal e França, Justa está preparada para conquistar novos mercados. O filme encontra-se agendado para exibição nas salas de cinema brasileiras e já recolheu seleções em festivais de cinema na Alemanha, Austrália, Grécia, Suíça, Brasil e Itália, entre outros. Este percurso internacional confirma o poder universal da narrativa e o impacto emocional de uma obra construída a partir de uma ferida tão local e tão profunda.
Informações Relevantes
Realizadora: Teresa Villaverde | Produção: Alce Filmes (Portugal) e Epicentre Films (França) | Filme premiado: Prémio Tiantan para Melhor Contribuição Artística e Melhor Atriz Secundária (Madalena Cunha) no Festival Internacional de Cinema de Pequim | Tema: Resiliência e reconstrução após o incêndio de Pedrógão Grande (2017)