Inauguração da Casa Plástica

Do som à pintura, da arquitetura à escultura, do vídeo à criação multidisciplinar, as propostas da Casa Plástica 2026 partem de uma reflexão crítica sobre a vulnerabilidade do conceito de casa e o passado transitório da antiga Pousada da Juventude, espaço que durante anos acolheu quem estava de passagem.

Entre abrigo e instabilidade, pertença e deslocação, os artistas convidados exploram a casa como lugar físico, simbólico, emocional e por vezes transitório, sujeito às pressões do tempo, da memória e das transformações sociais.

Participam nesta edição Andreas Trobollowitsch, MAISMENOS, Patrick Hubmann, Aires de Gameiro e João Aires Gama, bem como o projeto Khana, desenvolvido com participantes do programa Barakat, da InPulsar, em co-criação com o Colectivo Til e a Casota Collective.

Veja o programa completo da Casa Plástica.

Khana

Khana é um projeto de co-criação que junta a Casota Collective, o Coletivo Til e participantes do programa Barakat — refugiados que vivem na região de Leiria. Ao longo de várias sessões, o grupo explorou questões sobre identidade, memória e pertença, transformando essas conversas em trabalho visual.

O resultado é uma apresentação pública que traz para o palco as histórias e perspetivas de quem participou neste processo artístico e comunitário. É o tipo de projeto que acontece quando se cria espaço real para diálogo e criatividade coletiva.

Aires de Gameiro

Aires de Gameiro trabalha na fronteira entre pintura e escultura, explorando como a perceção e a narrativa se desfazem. Nesta residência, o artista investiga expressões idiomáticas portuguesas—aquelas que dizemos sem pensar—e transforma-as em obra visual.

A ideia é simples mas potente: expressões como estas condensam imagens, gestos e situações que vivem entre o literal e o figurativo. São construções que cabem numa frase mas abrem mil interpretações. Aires de Gameiro traduz-as para o campo visual e material, criando obras onde linguagem, imagem e experiência se contaminam mutuamente. O resultado? Instabilidade narrativa, associações inesperadas, espaço para múltiplas leituras.

Este é um trabalho de investigação contínua, onde cada peça é simultaneamente pintura e escultura, forma e conceito, aquilo que vemos e aquilo que imaginamos ver.

Aires Gama

Aires Gama explora a vulnerabilidade como condição humana—aquela sensação de que tudo pode desabar, literalmente ou não. O trabalho parte de um tema que ganhou força real em Leiria: como é que a vida nos expõe, coletivamente, àquilo que não controlamos. Insegurança, impotência, fragilidade. Coisas que aparecem por razões económicas, sociais ou quando uma tempestade passa.

João Gama responde com elementos escultóricos que refletem sobre isso tudo—sobre os objetivos que parecem inalcançáveis, sobre tentar construir uma carreira, uma casa, uma vida autónoma. Trabalha principalmente em mármore e madeira, materiais que conversam com ele através da intuição.

O artista estudou em Fátima e na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, e trabalha agora em Vila Viçosa, onde o mármore é central à economia e à história do lugar.

Casa Suspensa

Casa Suspensa é uma instalação que brinca com a ideia do que significa estar protegido. Imagina uma casa feita só de tecido — chão, paredes e teto tudo ligado — a flutuar no meio de uma sala cercada por ramos de árvores amarrados com cordas quase invisíveis. A estrutura pressiona a casa de todos os lados, mas deixa espaço para entrares e sentires o abrigo que se cria lá dentro.

A obra questiona a solidez da casa como conceito. Se construímos com materiais fortes mas frágeis na forma, será que realmente temos segurança? Patrick Hubmann, o designer e artesão austríaco por trás disto, trabalha nesta zona entre design, construção e espaço público — frequentemente com materiais reciclados e em contextos participativos.

Andreas Trobollowitsch

“lifing room” é uma instalação audiovisual que transforma o espaço numa coisa viva e em constante mudança. Andreas Trobollowitsch coloca máquinas, pessoas, plantas e objetos em diálogo, desfazendo as fronteiras entre o que cada coisa “deveria” ser. O som, o movimento e os materiais funcionam como um sistema aberto onde novas formas de convivência emergem naturalmente.

Para A Porta, o trabalho ganha uma versão específica ao contexto da antiga Pousada da Juventude. Pensa-se o espaço como uma estrutura frágil e temporária – uma “Khana” – entre proteção, transição e dissolução. Elementos instalativos, plantas e estruturas audiovisuais combinam-se no local, dialogando com objetos encontrados e possivelmente com performers locais.

No fundo, “lifing room” propõe-se como um espaço-processo onde a ideia de “casa” deixa de ser algo fixo para se tornar movimento contínuo entre corpos, materiais e ambientes. Nada está parado; tudo respira.

Patrick Hubmann

Casa Suspensa é uma casa de tecido espesso — chão, paredes e teto numa só pele — a flutuar no centro da sala. À volta, uma teia irregular de ramos, presos por cordas quase invisíveis, encosta-se e aperta a estrutura por todos os lados. Dá para entrar, estar lá dentro e sentir esse limbo: abrigo por dentro, tensão por fora.

A instalação puxa o tapete à ideia de “casa” como coisa fixa. Quando tudo é uma pele suspensa, onde acaba a segurança e começa a incerteza? Mesmo com materiais fortes, a fragilidade não desaparece — muda de sítio. Aqui, arquitetura, escultura e corpo cruzam-se num espaço que se percebe com o passo, com a distância ao tecido, com a proximidade dos ramos. É uma casa que não promete estabilidade; convida-te a afinar os sentidos e a repensar o que tomas por garantido.

Patrick Hubmann é designer e artesão austríaco a viver em Portugal. Integra a rede transnacional Constructlab e trabalha entre design, construção e espaço público, focado nas relações entre objetos, pessoas e ambiente. O seu percurso passa por instalações e intervenções participativas, muitas vezes com materiais reciclados ou reutilizados, em contextos comunitários e culturais na Europa e além. Em Casa Suspensa, essa prática ganha corpo num gesto simples e direto: montar um abrigo e, ao mesmo tempo, expor o seu lado frágil.

±MaisMenos±

±MaisMenos± vibra com contradições: excesso e escassez, ruído e silêncio, presença e ausência. Usa um vocabulário frontal, feito de símbolos, palavras e cortes limpos. Aqui, o sinal é argumento e a matemática vira pergunta: o que somas? o que tiras? quando é que o “mais” pesa e o “menos” liberta? Sem floreados, só ideias em estado bruto, afiadas para colidir com o olhar e ficar a ecoar depois.

Nesta proposta, o gesto é gráfico e sem rodeios. Frases curtas, tipografia sem tretas e contraste a puxar-te o olhar por segundos para deixar um rasto longo. As peças jogam com a escala e com o vazio: aproximas-te para ler, afastas-te para perceber o conjunto. Entre o branco e o negro abrem-se fendas onde cabem dúvidas, humor, desacordo, vontade de riscar e de reescrever. O texto torna-se imagem, a imagem torna-se tomada de posição — sempre com a simplicidade como arma.

Traz tempo para estar, não só para passar. Lê devagar, vê rápido, volta atrás. Concorda, discorda, sublinha. O resto acontece na tua cabeça: subtrair ruído, somar pensamento, dividir certezas, multiplicar perguntas. ±MaisMenos± prefere dar-te ferramentas a dar-te respostas. Sinal a sinal, o desenho encosta-se à tua vida diária e pede-te contas — sem gritar, mas sem pedir licença. Quando sais, ficas a fazer contas contigo: o que queres a mais; o que precisas a menos.