Caliente Isa

Isadora chega à cabine com um horizonte que cruza tradição latina e vanguarda do clubbing. O set não é museu nem nostalgia: é energia viva, recortada, que cola melodias herdadas a batidas do presente.

Dembow e reggaeton dão o corpo, a salsa abre espaço à conversa com a eletrónica: guaracha, tribal, global drums e techno empurram o compasso para a frente. É um vai-e-vem de ritmos caribenhos e texturas de pista, costurados com transições quentes, breaks certeiros e um groove que não perde de vista a rua.

Crescida nos subúrbios de Caracas, Isadora carrega essa cadência no ouvido e na curadoria. É fundadora e residente da SONIDO LACRA, noite dedicada a amplificar sons latino-americanos e a dar voz às comunidades migrantes em Portugal. Na cabine, essa intenção aparece clara: seleções que celebram diálogos sul-a-sul, desafiam fronteiras e abrem espaço para quem dança.

Terrible Mistake

De Leiria para o subterrâneo, os Terrible Mistake afinam uma eletrónica envolvente com toques de psicadélica. O som vem em claro-escuro: escuro, sensual e hipnótico. Há vozes em suspensão, batidas intensas e texturas que se estendem como nevoeiro, a abrir espaço para ritmos que colam ao corpo. As faixas respiram e expandem, puxando para atmosferas surreais onde a cabeça desliga e o corpo segue o pulso. Sem pressa de provar nada, a construção é paciente, de camadas sobre camadas, até o grave marcar território.

O duo navega entre a introspeção e a energia crua de um clube às 3 da manhã, alternando respiro e descarga, com vozes etéreas a pairar sobre batidas que não falham. Em volta, formam-se paisagens sonoras densas, cheias de detalhe e pulsação, que convidam tanto a fechar os olhos como a mexer o corpo. Com o álbum de estreia recentemente apresentado, abrem um novo capítulo na sua identidade sonora — afinando o escuro, a sensualidade e o transe em algo que fica debaixo da pele.

Lavoisier

Nada se perde, tudo se transforma—e os Lavoisier levam isso literalmente para o palco. Patrícia Relvas e Roberto Afonso expandem o duo de quinze anos com três novos músicos, criando um quinteto que soa completamente diferente.

O projeto é curioso: para o álbum “era com h” (2025), convidaram dez poetas contemporâneos a escrever poemas que depois viraram canções. Alice Neto de Sousa, Filipe Homem Fonseca, José Luís Peixoto, Nástio Mosquito e outros nomes da atual escrita portuguesa ganham vida musical neste novo formato.

É uma aposta arrojada que resultou numa expansão sonora clara—aqui celebra-se a musicalidade e o gesto que existem na poesia de agora, transformados em algo que só funciona quando visto ao vivo.

Mike El Nite

Mike El Nite traz um set que não se deixa prender a um só género. Vai de clássicos românticos a temas festivos, com remixes energéticos e 100% dançáveis que passam pela música portuguesa—de Ágata à Santa Maria a Marco Paulo—até aos hits pop do momento.

DJ, host e entertainer, o tipo sabe como mexer com o público e com os ritmos. A curadoria é cuidada, a energia é contagiante, e a abordagem é moderna. Espera-se animação à séria no Palco Pousada, daquelas noites em que a pista não descança.

PMDS

Pedro Sousa e Filipe Caetano trazem “Música Para Miradouros” direto dos Açores. Um álbum gravado em plena natureza em São Miguel, onde o duo se meteu em quatro sessões espalhadas pela ilha, cada uma num local diferente.

O formato é radicalmente honesto: gravaram tudo em direto, sem volta atrás, sem edição depois. O que sai é o que fica. Isto muda completamente a forma como a música respira — sem possibilidade de retoques, a autenticidade do momento é tudo. Pura performance em contacto direto com a natureza.

MONSTERA

MONSTERA é um projeto onde Mara Lisboa e Júlia Jacinto exploram o que significa ser mulher hoje e ontem. Trazem para o palco uma mistura de sons eletrónicos, instrumentos acústicos e gravações recolhidas na rua — tudo para resgatar fragmentos da música tradicional portuguesa.

A voz, a palavra e a improvisação são armas de libertação aqui. Não é só ouvir: é uma performance que questiona, que move, que tira palavras do lugar onde estavam guardadas.

Se gostas de música que pensa, que se desconstrói e reconstrói no ao vivo, isto vale a pena.

Sensible Soccers

Os Sensible Soccers têm essa coisa de não caberem bem em caixinhas. Gostam de melodias pop, mas misturam eletrónica com sons mais orgânicos, criando temas que fogem ao esquema típico de canção—estruturas que evoluem, arranjos que se desenrolam devagar.

Durante 15 anos, consolidaram-se como uma banda de palco, tocando em clubes, auditórios e nos festivais sérios (nacionais e internacionais). Juntaram um público heterogéneo que continua a crescer.

Depois de quase um ano fora dos circuitos, regressam agora com a bateria carregada. Estão metidos na composição do quinto álbum de originais, que sai em setembro de 2026.

Candy Diaz

Candy Diaz é Ana Farinha a curar discos sem fronteiras. Fala uma linguagem musical que mistura congas, palmas e coros gospelianos com guitarras que arranham quando precisam.

A rumba cigana é o seu ponto de partida, mas aí fica. Salta do post punk ao dub, do jazz ao latin, sempre com a cadência psicadélica a puxar pelo pulso. O que move isto tudo é aquela sensação de pure dope—algo que ferve, que se faz notar, que não deixa ninguém indiferente.

Se procuras uma noite com discos que vão da banalidade à raridade, com som que respira fora dos trilhos normais, isto é o teu.

Rui Miguel Abreu (dj set)

Rui Miguel Abreu é jornalista de música (Expresso, Blitz, We Jazz Magazine), tem programas de rádio na Antena 2 e Antena 3, dirige a revista digital Rimas e Batidas e criou a Now Jazz Agora, label focada nos novos rumos do jazz.

Nos seus dj sets, explora jazz e as suas vizinhanças mais interessantes—hip hop, funk, sons de África e Brasil. Tudo em vinil de sete polegadas, escolhido de uma coleção que vai reunindo há anos. É daqueles sets que te faz descobrir conexões que não vias antes.

Mariagrep

Mariagrep é aquela miúda que começou no Youtube a partilhar sons que adorava, até resolver criar os dela. Vem de Santiago de Compostela e conquistou a cena espanhola com uma mistura de bedroom pop e vaporwave que é ao mesmo tempo inocente e sensual.

A sua música urbana e melódica já a levou a palcos dos maiores festivais espanhóis. Além disso, está envolvida em projetos como dj Cool Nenas e Grande Amore. É o tipo de artista que mistura o caseiro com o sofisticado, e que prova que a internet é mesmo um trampolim se souber o que se quer.